4. O que dizem os textos religiosos do judaísmo sobre Jesus?

Ao longo da história, muitas pessoas se perguntaram se Jesus de Nazaré realmente existiu.

Alguns acreditam por fé, outros buscam evidências em livros antigos.

Já vimos que até escritores não cristãos — romanos, gregos, sírios, entre outros — mencionam Jesus em seus textos. Embora muitos fossem inimigos dos cristãos, deixaram registros de que Jesus foi uma figura real, alguém que existiu e deixou sua marca em seu tempo.

Mas agora queremos dar um passo além.

🕍 1.

O que diziam os próprios textos religiosos do judaísmo sobre Jesus?

Cartera Talmud. Trecho de texto em hebraico.

Embora pareça estranho, alguns desses livros — escritos por rabinos entre os séculos I e V depois de Cristo — mencionam Jesus.

Não com elogios, é claro.

Na verdade, o fazem com críticas, às vezes duras.

Mas justamente por isso, suas palavras podem ser muito valiosas: não tentam convencer ninguém, não defendem Jesus… e, mesmo assim, o mencionam.

Portanto, confirmam sua existência.

Os textos antigos do judaísmo confirmam a existência histórica de Jesus.

Talvez não gostassem de tê-lo feito, mas o fizeram.

Neste artigo, veremos algumas dessas referências.

Faremos isso de maneira simples, sem complicações acadêmicas, mas com seriedade.

Porque acreditamos que, no fim, até as palavras dos críticos ajudam a reconstruir a história.

Apresentamos aqui uma seleção clara e acessível de citações primárias do Talmude e da literatura rabínica sobre Jesus (Yeshu), incluindo os textos hebraicos traduzidos para o português com suas respectivas referências.

📖 2.

O que é o Talmude?

Estudantes do Talmud Estudantes do Talmude. Gravura. Ephraim Moses Lilien. Domínio público.

Antes de explorarmos as fontes primárias que mencionam Jesus no judaísmo, é necessário entender primeiro quais são os principais livros sagrados do judaísmo.

Os dois grandes e únicos livros do judaísmo são a Tanaj e o Talmude.

A Tanaj (Antigo Testamento) anunciou o Messias

Na Tanaj (o Antigo Testamento da Bíblia cristã), há mais de 450 referências que os sábios de Israel atribuíram à Pessoa do Messias.

Todas essas profecias do Messias anunciado se cumprem em Jesus de Nazaré.1

1) A pedido de um leitor, vamos preparar um artigo destacando essas profecias que provam, nos próprios textos fundamentais do judaísmo, que Jesus é o Messias anunciado na Tanaj.

Embora muitos judeus tenham crido Nele (todos os apóstolos e discípulos eram judeus, assim como a imensa maioria dos primeiros cristãos), grande parte do povo judeu não acreditou que Jesus era o Messias prometido.

Aqueles que não creram começaram a acumular ensinamentos orais, alguns dos quais procuravam desqualificar a figura de Jesus de Nazaré, pois, para eles, ele não era o Messias, mas sim um impostor.2

2) De fato, os ensinamentos rabínicos extrabíblicos já haviam começado formalmente com figuras como Hilel, no século I a.C., embora já existisse uma tradição oral interpretativa desde séculos antes (iniciada depois do retorno do povo judeu a Jerusalén (537 a.C. – 445 a.C.), quando foi construido o Segundo Templo).

Esse Hilel é considerado avô de Gamaliel, o Velho, mestre de Paulo (Saulo de Tarso), conforme Atos 22:3.

A diáspora dos judeus (a dispersão)

Com a destruição da cidade de Jerusalém e do Segundo Templo por Tito no ano 70, teve início a diáspora, que significa a dispersão do povo judeu pelas nações da antiga terra. Em 135 d.C., essa dispersão do povo judeu continuou, após a revolta de Bar Kojba (seguido pelo povo judeu como um falso Messias), que terminou em grandes massacres (estima-se entre 500.000 e 600.000 judeus mortos violentamente), a derrota total e a continuação da diáspora.

O Talmude: ensinamentos orais escritos

Os ensinamentos dos rabinos judeus que já eram transmitidos oralmente antes do ano 70 d.C. passaram a ser redigidos por escrito, aos poucos, a partir do ano 135 d.C., para evitar que se perdessem devido à dispersão do povo judeu e à perseguição romana. Esses escritos foram chamados de Talmude.3

3) Os ensinamentos de Hilel, Shammai e outros sábios foram transmitidos oralmente e depois reunidos na Mishná (por volta do ano 200 d.C.).

A Mishná foi a base do Talmude, que se desenvolveu ao longo dos séculos seguintes.

Manuscrito da Mishná. s. X ou XI. Coleção de David Kaufmann.

Os textos do Talmude foram sendo escritos, primeiro na Galileia e depois na Babilônia (atual Iraque) a partir do século II, concluindo sua redação no final do século VI (anos 500–600 d.C.).4, 5

4) O Talmude é o segundo livro em importância do judaísmo. Não é um livro como um romance, mas uma compilação de ensinamentos e leis orais judaicas que os rabinos judeus reuniram ao longo de cerca de 4 ou 5 séculos.

Tem duas partes:

  1. A Mishná (século II d.C.). Compilação de leis orais judaicas. Antes eram transmitidas de boca em boca, mas os rabinos decidiram escrevê-las para que não se perdessem.
  2. A Guemará (séculos III–V d.C.). São os comentários e debates dos rabinos sobre a Mishná. É como uma grande conversa entre mestres que viveram em épocas diferentes.

5) Para as pessoas seguidoras ou estudiosas do judaísmo, o Talmude não é um livro inspirado por Deus. Trata-se de um simples — embora importante para eles — resumo de ensinamentos, ao contrário da Tanaj, que sim é considerada revelada por Deus. A Tanaj é idêntica, versículo por versículo, ao Antigo Testamento dos cristãos, com exatamente os mesmos 34 livros. A única diferença é que os 34 livros estão compilados em ordem diferente.

📖 3.

O Talmude testifica que Jesus (Yeshu) foi crucificado na véspera da Páscoa

https://devotiontoourlady.com/sanhedrin.html

Essa é uma das menções mais diretas a Jesus na literatura tradicional judaica, em um trecho que narra o julgamento e a morte do Jesus histórico.

Essa citação em “Sanhedrin 43a” é uma confirmação histórica da crucificação de Jesus.6

6) Há fortes evidências históricas de que essa citação sobre Yeshu (Jesus) em “Sanhedrin 43a” foi censurada, com a remoção do nome “Yeshu”, em muitas edições posteriores do Talmude, especialmente a partir da Idade Média, para evitar perseguições de autoridades católicas e/ou muçulmanas. (Veremos no próximo capítulo — o n.º 5 desta série sobre a Historicidade de Jesus — que o Islã reconhece explicitamente a existência de Jesus, mas não aceita sua crucificação).

Edições mais recentes, como o Talmud de Vilna (século XIX), já restauram parte do texto original, graças à maior liberdade acadêmica e religiosa.

O texto é um pouco confuso. Leia com atenção.

📜 “Ensinava-se: na véspera da Páscoa, penduraram Yeshu6. O arauto saiu durante quarenta dias dizendo: ‘Será apedrejado por praticar feitiçaria e afastar Israel de seus caminhos. Quem tiver algo que possa absolvê-lo, que venha e diga’. Mas ninguém o fez. Ele foi pendurado na véspera da Páscoa.”
Talmude Babilônico, Sanhedrin 43a

É importante destacar que o texto começa assim: “Ensinava-se”. Não diz “Isso foi o que aconteceu”, o que seria o lógico nesse caso.

Não.

Diz: isso era o que se ensinava.

Isso era o que foi ensinado sobre a morte de Jesus pelo judaísmo farisaico já nos primeiros séculos.

Foi ensinado — e continua sendo, embora de forma mais politicamente correta.

O mesmo texto foi traduzido de diversas maneiras. Abaixo você pode ler outra versão consultada:

📜 “Na véspera da Páscoa penduraram Yeshu. Um arauto foi à frente dele durante quarenta dias, proclamando: ‘[Yeshu] será apedrejado, pois praticou feitiçaria, incitou Israel à apostasia e seduziu o povo. Quem tiver algo a dizer em sua defesa, que venha e diga’. Mas nada foi encontrado em seu favor e ele foi pendurado7, 8, 9 na véspera da Páscoa.”
Talmude Babilônico. “Sanhedrin 43a” https://en.wikipedia.org/wiki/Sources_for_the_historicity_of_Jesus

7) Essa menção a que Yeshu foi “pendurado” em Sanhedrin 43a refere-se a uma crucificação. Embora o termo hebraico utilizado seja talah (תָּלָה), que literalmente significa “pendurar”, no contexto romano do século I essa expressão pode ser entendida como referência à crucificação.

Na própria Lei estava escrito:

📜 “Quando em alguém houver pecado passível de pena de morte, e for morto, e o tiveres pendurado num madeiro, o seu corpo não permanecerá ali durante a noite; sem falta o enterrarás no mesmo dia, pois o pendurado é maldito de Deus;”

A lei dada por Deus a Moisés não permitia a execução por crucificação. Essa era aplicada apenas em árvores ou estacas, em raras ocasiões, e com o corpo já sem vida. A Lei Romana, extremamente cruel, permitia a crucificação com pessoas vivas, como método de tortura e execução.

8) Peter Schäfer, em Jesus in the Talmud, afirma que “pendurar” nesse contexto é uma referência velada à crucificação.

9) Joseph Klausner (historiador judeu) e outros estudiosos concordam que esta é uma referência indireta, feita pelos rabinos, a Jesus e sua morte sob autoridade romana.

Esse trecho nos conta que um arauto, a mando dos principais sacerdotes e anciãos judeus, saiu anunciando ao povo, durante os 40 dias antes da Páscoa, que havia graves acusações contra Yeshu (“praticar feitiçaria e afastar Israel de seus caminhos“).

Durante esses 40 dias, qualquer pessoa que tivesse algo para defender Yeshu podia apresentar-se diante das autoridades judaicas e defendê-lo.

Essa pessoa não podia ser qualquer um do povo. Deveria ser alguém com autoridade, ou seja, reconhecido pelo sistema legal ou religioso. Uma pessoa comum dificilmente teria peso diante do Sinédrio de Jerusalém.10.

10) “The Jewish Law Annual” ou “Everyman’s Talmud” (A. Cohen) resumem bem esses procedimentos. Artigos acadêmicos sobre o sistema judicial do Segundo Templo, como os de Daniel Boyarin, David Instone-Brewer ou E. P. Sanders.

É evidente que ninguém teve coragem de se apresentar diante do Sinédrio para defender Jesus, pois os judeus já haviam ordenado que qualquer um que o apoiasse seria expulso das sinagogas, entre outras consequências sociais e religiosas graves.

Portanto, diz o texto, como ninguém foi defendê-lo, Yeshu foi crucificado na véspera da Páscoa. Ou seja: não foi apedrejado, como inicialmente anunciado, mas foi pendurado num madeiro.

Jesus Cristo não foi apedrejado como previsto pelas autoridades de Israel; ele foi crucificado.

A forma de aplicar uma pena de morte na Tanaj (Antigo Testamento) era o apedrejamento. O procedimento de pendurar alguém num madeiro era sempre após a morte, nunca como método de execução.

O apedrejamento, embora hoje pareça brutal, era uma forma de execução que visava ser rápida e muito menos dolorosa.

apedreamiento Lapidação de Estêvão. Julius Schnorr von Carolsfeld / Bridgeman Images https://www.meisterdrucke.es/

A intenção não era prolongar o sofrimento. O procedimento buscava minimizar a dor dentro do castigo. Em algumas ocasiões o condenado era lançado de certa altura (cerca de 2 metros); se sobrevivesse, as testemunhas lançavam uma pedra grande sobre seu peito; se ainda não tivesse morrido, então o povo completava o castigo.11

11) Era, portanto, uma forma de castigo que não buscava o sofrimento prolongado nem a humilhação pública.

Em contraste, a crucificação era um castigo romano, desconhecido em Israel e não permitido pela lei judaica. Foi desenhada para ser extremamente cruel, lenta e humilhante. As pessoas eram pregadas ou amarradas em madeiros ou árvores e deixadas ali, muitas vezes nuas, por horas ou até dias, sofrendo até morrer por asfixia, desidratação ou dor.

A crucificação era usada principalmente com escravos, estrangeiros ou rebeldes — nunca com cidadãos romanos —, e seu objetivo era dar uma lição pública a qualquer um que pensasse em desafiar o Império.

Por isso, quando os Evangelhos relatam a crucificação de Jesus, estão descrevendo uma execução romana, não judaica. As autoridades religiosas judaicas da época não podiam aplicar a pena de morte por conta própria (sob domínio romano), e além disso sua lei nunca teria contemplado um castigo tão cruel como a crucificação.

Pela citação já mencionada de “Sanhedrin 43a”, sabemos que as autoridades judaicas haviam previsto o apedrejamento de Jesus, e assim foi anunciado por aquele pregoeiro ou, segundo a tradução, arauto. De fato, nos Evangelhos estão narradas várias tentativas de apedrejamento de Jesus, das quais Cristo sempre escapava, de forma surpreendente, para o crente até mesmo sobrenatural, sem violência, porque “ainda não havia chegado sua hora”.

📜 “Procuravam, pois, prendê-lo; mas ninguém lhe pôs as mãos, porque ainda não era chegada a sua hora”.
João 7:30
📜 “Então pegaram em pedras para atirar nele; mas Jesus se escondeu, e saiu do templo; e, passando pelo meio deles, retirou-se”.
João 8:59

Jesus, finalmente, foi crucificado pelos romanos, pois essa era a pena mais cruel e humilhante aplicada apenas a cidadãos não romanos. Como a Lei Romana não permitia a crucificação por delitos religiosos internos dos judeus (alegados pelos principais sacerdotes judeus), eles, com astúcia, apresentaram Jesus como uma ameaça política, ao dizer diante de Pilatos que Ele se autodenominava “Rei dos Judeus”.

📜 “E começaram a acusá-lo, dizendo: Encontramos este homem pervertendo a nação, proibindo dar tributo a César, dizendo que ele mesmo é Cristo, o rei”.
Lucas 23:2
📜 “És tu o Rei dos Judeus? E Jesus lhe respondeu: Tu o dizes.”
Lucas 23:3

E foi por isso que Pilatos mandou escrever na cruz:

📜 “E por cima da sua cabeça puseram por escrito a sua acusação: ESTE É JESUS, O REI DOS JUDEUS”.
Mateus 27:37

E, para que ninguém tivesse dúvida, mandou escrever em grego, latim e hebraico, as três línguas que coexistiam na sociedade em Israel durante aquele período da história.

📜 “E também por cima dele estava um título escrito em letras gregas, latinas e hebraicas: ESTE É O REI DOS JUDEUS”.
Lucas 23:38

Um detalhe importante que veremos mais adiante com mais atenção: a menção de que “Yeshu foi pendurado na véspera da Páscoa” é tão incomum e específica, que tem chamado a atenção por séculos.

Não há no Talmude outra execução que mencione a Páscoa como momento específico. Isso torna essa menção altamente distintiva.12, 13, 14

12) Peter Schäfer, em Jesus in the Talmud (2007) diz que essa coincidência reforça a identificação indireta de Yeshu com Jesus, embora o tom do texto seja hostil.

13) R. T. Herford, em Christianity in Talmud and Midrash, já no século XX afirmava que a especificidade da data é uma clara alusão a Jesus de Nazaré.

14) O próprio Talmude da Babilônia, ao redigir essa história, usa nomes alternativos ou deformados (como Yeshu em vez de Yeshua, ou Ben Stada), possivelmente para evitar censura ou perseguição, especialmente em contextos bizantinos ou islâmicos.

Todos esses fatos confirmam, não apenas a existência histórica de Jesus, mas também a veracidade do texto bíblico.

📜 “E Pilatos lhes respondeu, dizendo: Quereis que vos solte o Rei dos Judeus? Porque ele sabia que por inveja os principais sacerdotes o haviam entregado”.

🔥 4.

O Talmude acusa Jesus de imoralidade, idolatria e feitiçaria

Rabino ensinando o Talmude

Em dois textos diferentes dos tratados “Sanhedrin 107b” e “Sotah 47a” do Talmude da Babilônia, menciona-se o mesmo fato relacionado com Yeshu; embora esses textos não sejam exatamente iguais, são muito semelhantes e, em essência, explicam a mesma coisa.

Isso acontece porque o Talmude não é um livro linear, mas sim uma compilação de discussões dos rabinos judeus.

📜 “Em ‘Sanhedrin 107b’ e ‘Sotah 47a’ diz-se que Jesus foi sexualmente imoral e adorou ídolos.”
One Messianic Gentile, Wikipedia, jewsforjudaism.org

Vejamos a primeira citação em “Sanhedrin 107b”:

📜 “Yeshu praticou feitiçaria, incitou os judeus à idolatria e levou Israel pelo mau caminho.”
Talmude da Babilônia. Sanhedrin 107b

No tratado “Sotah 47a”, do mesmo Talmud da Babilônia, essas mesmas acusações terríveis são repetidas, inseridas em um contexto diferente:

📜 “Outro mestre disse: ‘Yeshu, o Nazareno, praticou magia (feitiçaria), enganou e desviou Israel’.”
Talmud da Babilônia. Sotah 47a

Se uma análise simplificada da citação em “Sanhedrin 107b” poderia permitir a dúvida sobre se esse Yeshu era ou não o Jesus histórico, essa repetida menção, com o adjetivo “o Nazareno” aplicado a Yeshu elimina qualquer dúvida, pois não existiu outro personagem na história judaica com esse nome.15, 16

15) No Talmude, o adjetivo “o Nazareno” (em hebraico: HaNotzri / הנוצרי) aparece exclusivamente vinculado a Yeshu (Jesus de Nazaré), e não é aplicado a nenhum outro personagem. O uso de “HaNotzri” é reconhecido universalmente nos estudos acadêmicos como uma designação exclusiva de Jesus e, com o passar dos séculos, o adjetivo pejorativo “nazareno” passou a ser usado como sinônimo de “cristão”.

16) Peter Schäfer. Jesus in the Talmud. Este renomado professor de judaísmo em Princeton analisa criticamente todas as passagens rabínicas em que se menciona Yeshu HaNotzri, e conclui que não há outro personagem com esse título. A identificação com Jesus de Nazaré não é apenas provável, mas certa.

Portanto, podemos concluir, de forma bem fundamentada, que os textos mencionados dos tratados “Sanhedrin 107b” e “Sotah 47a” se referem a Jesus de Nazaré, sem sombra de dúvida.17

17) Justamente por ser uma menção tão evidente, em muitas edições posteriores, a expressão “o Nazareno” foi eliminada ou suavizada por censores, embora esteja indiscutivelmente presente nos manuscritos antigos.

Mais uma vez, os textos do judaísmo oficial demonstram, sem sombra de dúvida, a existência histórica de Jesus de Nazaré.

💀 5.

O Talmude afirma que Jesus está sendo castigado no além

Fragmento portada Talmud Schottenstein Edition of the Talmud – Hebrew [#64] – Chullin volume.

No tratado “Gittin” do mesmo Talmud da Babilônia — concretamente nos fólios 56b e 57a — encontra-se uma das citações talmúdicas talvez mais ofensivas e repugnantes que fazem referência a Jesus de Nazaré. Nessa citação, o personagem hipotético, como se fosse o próprio Jesus confessando no “além”, afirma que está sendo cozido em excrementos ferventes.

O motivo que o contexto dá ao leitor para tal terrível castigo é o fato de ele ter “zombado das palavras dos Sábios”.

Devido ao caráter agressivo e ofensivo deste texto, em versões posteriores ao tempo de sua redação, buscou-se omitir o nome “Yeshu” e também “o Nazareno”, por ser um adjetivo peculiar e característico de Jesus.

Não podemos duvidar de sua autenticidade, pois as versões antigas o apresentam sem restrições.

📜 “Onkelos convocou Yeshu, o Nazareno, por meio de necromancia.
Perguntou-lhe: “Quem é bem visto no outro mundo?”
Responderam: “Israel”.
“Então, devo me unir a eles?”
“Busca o bem deles, não o mal, pois quem os fere, fere o centro dos seus olhos”.
Perguntou depois: “Qual é o seu castigo?”
Responderam: “Com excrementos ferventes”.
Talmud da Babilônia, Gittin 56b–57a. Manuscritos Munich 95 e Vaticano140

Esse tal Onkelos foi um romano do século I que se converteu ao judaísmo. Foi o tradutor do Pentateuco (os primeiros 5 livros do Antigo Testamento) do hebraico para o aramaico.

No tratado “Gittin” do Talmude está relatado que Onkelos tentou se comunicar com espíritos de personagens falecidos por meio de práticas esotéricas (necromancia), algo, diga-se de passagem, totalmente proibido no Tanakh ou Antigo Testamento.

Nessa “consulta”, ele chamou três espíritos condenados de três personagens do passado:

  1. Tito Flávio Vespasiano, comandante do exército romano que destruiu Jerusalém no ano 70.
  2. Balaão, o profeta do povo de Israel que, por dinheiro, pensou em amaldiçoar o povo de Israel (livro de Números).
  3. Jesus, o Nazareno, cujo espírito — segundo relata o Talmude — sofre um castigo horrível no além.

Esse relato em “Gittin” serviu aos escritores do Talmude como uma forma de expressar seu ódio a esses três personagens.

Em edições posteriores, como vimos em outros fragmentos, foi omitida a menção clara a “Yeshu, o Nazareno” como forma de evitar a censura medieval, devido à pressão das autoridades cristãs.18

18) WikiBrief, Reddit, pdfcoffee.com, tasbeha.org

O fato de aparecer “Yeshu, o Nazareno” nos manuscritos antigos indica de forma evidente que, em círculos rabínicos, o personagem era, sim, vinculado a Jesus de Nazaré.

⚖️ 6.

O Talmude insinua que Maria cometeu adultério com um tal Pandira e que Jesus (filho dessa união ilícita) trouxe feitiçaria do Egito

Fragmento de “Sanhedrin 67a”, do Manuscrito de Munique 95 (única cópia medieval completa do Talmud Babilônico.)

Em dois tratados do Talmude, “Sanhedrin 67a” e “Shabbat 104b”, menciona-se um personagem chamado ben Stada ou ben Pandira que foi executado “na véspera da Páscoa” (novamente a mesma menção) por ter praticado feitiçaria e corrompido Israel.19

19)

Com base nos evidentes paralelos entre essa história e as tradições cristãs, muitos — inclusive o censor cristão — entenderam que o personagem a que se faz referência aqui como ben Stada/ben Pandera era Jesus, o que levou à completa eliminação da passagem dos textos padrão do Talmud.

Citação textual deste site: https://www.ou.org/life/torah/masechet_sanhedrin_63a69b/?utm_source=chatgpt.com

A primeira citação é a seguinte:

📜 “Ben Stada trouxe feitiçaria do Egito gravada em carne cortada do seu corpo. Foi pendurado em Lod”.
Talmud da Babilônia, Sanhedrin 67a

Se não encontrássemos mais dados no próprio Talmude, não teríamos como relacionar esses nomes ao de Jesus, mas, como já mencionamos, o Talmude aborda esse assunto duas vezes e apresenta sua identidade com um jogo de palavras típico do estilo rabínico (Ben Stada [filho de Stada] e Ben Pandira [filho de Pandira]).

Aqui temos uma primeira versão:

📜 “Não foi Ben Pandira?
– Dizem: sua mãe foi Stada.
– Mas não foi Miriam, a mulher que trançava cabelos?
– Dizem: Sim, seu marido foi Stada, mas seu amante foi Pandira.
– E seu filho foi Ben Pandira.”
Talmud da Babilônia, Sanhedrin 67a

Aqui mostramos outra versão do mesmo fragmento, aparecido em outro tratado do Talmude, o “Shabbat 104b”, no qual se inclui um texto anterior que esclarece a relação de Ben Pandira/Ben Stada com o Jesus histórico:

📜 “Ben Stada foi executado em Lod, e pendurado na véspera da Páscoa. Ben Stada era Ben Pandira. Rav Hisda disse: ‘O marido foi Stada, o amante foi Pandira.’ Mas o marido não era Pappos filho de Yehuda? ‘Sua mãe era Stada… mas sua mãe era Miriam, que trançava cabelos.’ Como se diz em Pumbedita: ‘Essa mulher se separou de seu marido.’”
Manuscrito de Munique 95, única cópia medieval completa do Talmud Babilônico. Sanhedrin 67a

Não é nada arriscado associar essa história a Jesus.

Encontramos no texto vários indícios claros.

🧵 A menção a Miriam, mãe de Ben Stada/Ben Pandira

O texto menciona o nome da mãe desse personagem: Miriam. Esse detalhe é, no mínimo, surpreendente. Miriam é Maria em hebraico, e é o nome da mãe de Jesus.

Por outro lado, o nome Ben Pandira (filho de Pandira) também foi vinculado por alguns textos medievais a Jesus em repetidas ocasiões.

O fato bíblico de que José, sendo o marido de Maria (Miriam), não fosse o pai biológico de Jesus é algo muito fácil de ser deturpado por mentes inimigas do Evangelho.

🧩 Crucificar alguém na véspera da Páscoa

Esse é um detalhe muito significativo. Explica-se que esse personagem foi crucificado na véspera da Páscoa:

📜 “Ben Stada foi pendurado na véspera da Páscoa.”
Talmud da Babilônia, Sanhedrin 67a

Já vimos anteriormente que não era comum executar alguém na véspera da Páscoa. Acrescentamos novos motivos:

  • A Páscoa (Pessach) era uma das festas mais importantes e considerada um tempo sagrado de purificação.
  • A execução pública (como pendurar alguém, ainda que fosse após a lapidação segundo a lei judaica) não era normalmente praticada em dias festivos nem em suas vésperas.
  • Os textos rabínicos indicam a suspensão de processos judiciais capitais em dias festivos20; embora haja debates na Halachá sobre os detalhes, a véspera da Páscoa não era um momento típico para realizar execuções.
  • Corresponde aos Evangelhos: Os quatro Evangelhos situam a crucificação de Jesus perto ou na véspera da Páscoa.
  • Uso do verbo “pendurar” (talah, em hebraico): no contexto talmúdico, pode referir-se tanto a ser pendurado num madeiro após ser apedrejado (Deuteronômio 21:22–23), quanto à crucificação romana.
  • Coincidência única: Não há no Talmud outra execução que mencione especificamente a Páscoa como momento da ação. Isso torna essa menção altamente distintiva.

20) Ver Mishná, Beitzá 5:2

🔎 A execução na véspera da Páscoa não parece ter sido uma prática habitual, e sua menção no Talmud aponta claramente para um evento específico: a crucificação de Jesus de Nazaré.21, 22, 22a

21) Peter Schäfer (Jesus in the Talmud, 2007) afirma que essa coincidência reforça a identificação indireta de Yeshu com Jesus, mesmo que o tom do texto seja hostil.

22) R. T. Herford, em Christianity in Talmud and Midrash, já no século XX afirmava que a especificidade da data é uma clara alusão a Jesus de Nazaré.

22a) O próprio Talmud da Babilônia, ao redigir essa história, utiliza nomes alternativos ou deformados (como Yeshu em vez de Yeshua, ou Ben Stada), possivelmente para evitar censura ou perseguição, especialmente em contextos bizantinos ou islâmicos.

O local da execução: Lod?

Por outro lado, a menção a “Lod” como local da execução pode parecer enganosa. Mas, após alguma pesquisa, podemos verificar que Lod é uma cidade mencionada várias vezes no Talmude, muito próxima a Jerusalém (cerca de ~40 km).23

23) Lod e Jerusalém estavam geográfica e religiosamente conectadas. Lod não era uma aldeia periférica, mas sim um centro ativo dentro da vida judaica na época do Segundo Templo. Sua proximidade com Jerusalém e sua função na administração legal e rabínica reforçam esse vínculo.

Fonte: https://jvl.levit.dev/lydda?utm_source=chatgpt.com

🔎 Em resumo: embora alguns rabinos ou comentaristas posteriores tenham tentado desvincular Ben Stada de Jesus, essa conexão é difícil de ignorar.

📝 7.

Toledot Yeshu (séculos V–XII) fala de Yeshu como um personagem real, embora zombando dele

Lápide de Baruch (Speyer) – Cidades SchUM

Toledot Yeshu não é uma obra rabínica oficial.

Trata-se de um texto satírico judaico sobre a vida de Jesus.

Foi escrito ao longo de quase sete séculos.

Circuló en distintas versiones en comunidades judías medievales.

El texto menciona a Yeshu como un personaje real, aunque lo retrata de manera negativa.

Ese texto -aunque hace escarnio de Jesús- sin quererlo, constituye una evidencia histórica más de su existencia.

Jesús era reconocido, incluso por quienes rechazaban su figura mesiánica.

Este tipo de literatura polémica no es teológica ni histórica en sentido estricto, pero presupone la existencia de Jesús.

📚 8.

Diversos sábios judeus reconheceram sem nenhuma dúvida a existência de Jesus como alguém que quis ser o Messias e foi executado pelos líderes do povo de Israel

Além das citações dos textos do Talmude, ao longo dos séculos, alguns sábios judeus reconheceram indiretamente a existência histórica de Jesus de Nazaré, ainda que o fizessem a partir de uma perspectiva crítica.

Daremos dois exemplos de dois pensadores muito influentes no judaísmo: Maimônides (século XII) e Nachmânides (século XIII).

🧠 Maimônides

Maimônides (século XII), foi um dos pensadores mais importantes do judaísmo medieval. Escreveu sobre “Jesus, o Nazareno” como alguém que pretendia ser o Messias, mas que foi executado por decisão de um tribunal judeu e condenado por “desviar Israel”.

Em sua obra “Mishné Torá”, seção Hilchot Melachim (Leis sobre os Reis), Maimônides refere-se diretamente a Jesus (Yeshu), reconhecendo sua influência na história:

📜 “Jesus, o Nazareno, que se propôs a ser o Messias, foi executado pelo tribunal, e já havia sido profetizado por Daniel que o Messias seria eliminado. […] Não há propósito maior em tudo isso senão preparar o mundo para o verdadeiro Messias…”
“Mishné Torá”, seção Hilchot Melachim (Leis sobre os Reis), cap.11, halachá 4

Aqui, Maimônides:

  • Considera real a figura de Jesus como personagem histórico.
  • Aceita que foi executado por um tribunal judeu.
  • Vê-o como uma figura que faz parte do plano providencial de Deus para preparar o mundo, embora o considere um falso Messias.

🧠 Nachmânides

A carta de Nachmânides ao seu filho está exposta na sinagoga de Ramban em Jerusalém. Deror avi.

Nachmânides (século XIII), outro grande pensador, participou de disputas públicas com cristãos e também falou de Jesus como uma figura histórica, mas negou sua divindade e seu messianismo.

Durante o debate público entre Nachmânides (Ramban) e Pablo Christiani, este último argumentou que, segundo certas passagens do Talmud, os sábios fariseus acreditavam que o Messias já havia aparecido na época talmúdica, insinuando que se referiam a Jesus (Yeshu).24

24) Graetz, Geschichte der Juden Vol. VII, pp. 440–441; Chazan, Barcelona and Beyond, p. 199.

Nachmânides respondeu:

📜 “Os sábios do Talmud não acreditaram que o Messias fosse Jesus. Se assim o tivessem acreditado, teriam sido cristãos como Paulo; mas eles viveram e morreram como judeus.”
Disputa de Barcelona, 1263

Essa passagem demonstra claramente que Nachmânides reconhecia Jesus como figura histórica, embora refutasse seu messianismo, defendendo que os rabinos permaneceram judeus.

Essas referências não pretendem defender Jesus, mas mostram que sua existência era reconhecida e levada em consideração por importantes figuras do pensamento judaico.

🗒️ Resumo para divulgação

Texto talmúdico Referência O que diz
Sanhedrin 43a penduraram Yeshu na véspera da Páscoa após acusações de feitiçaria e apostasia.
Sanhedrin / Sotah 107b, 47a Acusações contra Yeshu de imoralidade sexual e idolatria.
Gittin 56b–57a O espírito de Yeshu diz estar submerso em excrementos ferventes no além.
Sanhedrin 67a 67a Menciona “Ben Stada” pendurado na véspera da Páscoa, filho de uma mulher chamada Miriam. Clara referência a Jesus.
Maimônides “Mishné Torá” Apresenta Jesus como personagem histórico executado por um tribunal judeu, parte do plano de Deus para o povo.
Nachmânides Disputa de Barcelona (1263) Reconhece claramente Jesus como figura histórica, embora refute seu messianismo.

🏁 e 6.

Conclusão

Esses textos judaicos antigos, embora a partir de uma posição crítica e bastante hostil, contêm referências que aludem a Jesus de Nazaré.

Não o apresentam como figura divina, mas sim como um herege ou feiticeiro condenado.

Mas, para o propósito da nossa investigação — provar a existência histórica de Jesus — tornam-se provas contundentes.

Em alguns escritos do judaísmo dos primeiros séculos tentou-se desprestigiar Jesus de Nazaré, mas tais escritos se tornaram evidências da sua existência histórica e de três fatos muito significativos:
  • Sua discordância com os ensinamentos judaicos da época.
  • A ameaça de sua execução por apedrejamento pelo Sinédrio do século I.
  • Sua execução por crucificação pelos romanos, na véspera da Páscoa.

Como era de se esperar, algumas fontes rabínicas tentaram evitar essa evidência, explicando que não deveriam se referir à mesma pessoa. Já mencionamos que os textos foram posteriormente modificados por medo de perseguições durante a Idade Média e até o século XIX.

No entanto, a quantidade e a qualidade das evidências apresentadas neste trabalho não deixam dúvidas de que o judaísmo deixou um registro histórico muito sólido da existência de Jesus de Nazaré.

Doa a quem doer, essas menções da literatura rabínica servem como testemunho independente e não cristão da existência de Jesus e de seu impacto histórico.

Em resumo

Os escritos judaicos servem como testemunho independente e não cristão da existência de Jesus; que ele afirmou ser o Mesias mas foi crucificado na véspera da Páscoa.

Créditos

Texto

Referências intercaladas no texto

Imagens

Fonte detalhada ao pé de cada imagem

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