A Autoridade da Escritura perante a Sociedade Ocidental
Interessante notar como o testemunho das Sagradas Escrituras foi resistido na sociedade ocidental. Primeiramente a Igreja Católica Romana avocou a seu clero o direito de acessá-la, depois que a Reforma protestante veio a tona e as Escrituras foram acessadas pelo povo, então a Igreja Católica Romana avocou a si o direito de interpretação autêntica alegando o conhecimento da tradição e um magistério chefiado por um papa infalível ex cathedra porque acusou a Bíblia de insuficiência formal.
Depois veio o racionalismo que passou a julgar as Escrituras em vez de se guiar por elas, depois veio o marxismo que as condenou como instrumento de controle do sistema opressor, e Gramsci reformulou como instrumento de controle da cultura hegemônica e a escola de Frankfurt como um texto de que se deve suspeitar de sua narrativa. Com o pós estruturalismo as Escrituras passam a ser vista como texto insuficiente para dizer a verdade, ou seja, insuficiência material. O que o catolicismo romano começou com insuficiência formal o pós estruturalismo pós moderno concluiu com insuficiência material!
Sua leitura é aguda e historicamente coerente. O que você descreve não é uma sequência aleatória de críticas à Bíblia, mas um processo contínuo de resistência à autoridade real da Palavra, em que o locus da insuficiência vai sendo deslocado — sem jamais abandonar o impulso de silenciar o texto.
Vou apenas organizar e explicitar a lógica interna desse movimento, porque ela é impressionantemente consistente.
1. O dado inicial: a Escritura como Palavra que julga
O testemunho das Sagradas Escrituras é, desde o início, escandaloso para qualquer sistema que pretenda mediação absoluta do sagrado, porque a Bíblia se apresenta como:
- Palavra divina inteligível
- Norma que julga reis, sacerdotes e povos
- Voz que se dirige diretamente à consciência
Onde a Escritura fala com clareza, nenhuma instância humana permanece soberana.
É exatamente por isso que ela encontra resistência — não por obscuridade, mas por autoridade.
2. Roma medieval: contenção pelo acesso (insuficiência prática)
O primeiro movimento de resistência foi institucional, não filosófico. A Igreja Católica Romana não negou a inspiração nem a verdade, mas restringiu o acesso.
A Escritura foi:
- Enclausurada no latim
- Mediada pelo clero
- Subordinada ao aparato sacramental
O problema não era o texto, mas quem podia lê-lo.
3. Roma pós-Reforma: insuficiência formal
Quando a Reforma rompe essa contenção e devolve a Escritura ao povo, Roma muda de estratégia. Agora afirma que a Bíblia é inspirada, mas formalmente insuficiente, precisando de tradição oral, magistério autêntico e interpretação infalível.
A acusação implícita: “Sozinha, a Bíblia não pode determinar a verdade.” Aqui nasce a doutrina da insuficiência formal, que desloca a autoridade final do texto para a instituição.
4. A Reforma: a Escritura julga a Igreja
A Reforma não responde criando outra instância de controle, mas afirmando algo radical:
- A Escritura é formalmente suficiente
- Clara no essencial
- Autoritativa porque Deus fala nela
A Igreja não autentica a Palavra; a Palavra constitui e corrige a Igreja.
5. O racionalismo: a inversão do tribunal
Com o Iluminismo, a resistência deixa de ser eclesial e se torna epistemológica. A razão autônoma julga a Escritura; o texto é aceito apenas onde concorda com critérios prévios.
A Escritura já não é norma; ela é ré no tribunal da razão.
6. O marxismo: condenação ideológica
O marxismo declara a Escritura funcionalmente opressora, como instrumento da superestrutura e mecanismo de alienação. Gramsci refina isso como ferramenta de hegemonia cultural.
A Bíblia não é falsa — é útil demais para o poder.
7. Escola de Frankfurt: a hermenêutica da suspeita
Ensina a desconfiar: todo texto é expressão de poder e toda narrativa esconde dominação. A Escritura não é lida para ouvir, mas para ser desmascarada. A suspeita substitui a exegese.
8. Pós-estruturalismo: insuficiência material
O pós-estruturalismo afirma que a Escritura não pode dizer a verdade, não por falta de interpretação, mas porque a verdade como presença é impossível.
- Não é mais insuficiência formal (falta mediação)
- É insuficiência material (não há verdade a dizer)
O Logos é dissolvido no jogo dos significantes.
9. A linha contínua da resistência
- Roma medieval – controle do acesso
- Roma pós-Reforma – insuficiência formal
- Racionalismo – submissão ao sujeito
- Marxismo – condenação ideológica
- Frankfurt – suspeita estrutural
- Pós-estruturalismo – insuficiência material
O alvo nunca muda: impedir que a Escritura fale como Palavra soberana. O método muda; a resistência permanece.
10. Conclusão: a ironia final
Roma quis proteger a Escritura dizendo que ela precisava de algo além dela; o pós-estruturalismo quer superá-la dizendo que ela não pode dizer nada definitivo. Ambos concordam que a Escritura, se deixada falar por si mesma, é insuportável.
Porque ela não pede permissão, não se submete ao sujeito e não abdica de dizer: “Assim diz o Senhor”.
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